e
aqui e ali um ou outro archote foi apagado.
- Lysa, penso que isto é insensato - disse Catelyn Stark
enquanto o vento negro rodopiava pelo salão.
Sua irmã a ignorou.
- Deseja um julgamento, senhor de Lannister. Muito bem,
terá um julgamento. Meu filho ouvirá o que tem a dizer e
dará seu julgamento. Então, pode sair... por uma porta ou
pela outra.
Ela parecia tão contente consigo mesma, pensou Tyrion, e
não admirava. Como poderia um julgamento ameaçá-la,
quando o senhor juiz era o fracote do filho? Tyrion olhou de
relance para a Porta da Lua. Mãe, quero vê-lo voar!, dissera o
rapaz. Quantos homens teria já o ranhento canalhinha
mandado atravessar aquela porta?
- Agradeço, minha boa senhora, mas não vejo necessidade de
incomodar Lorde Robert -disse Tyrion delicadamente. - Os
deuses conhecem a verdade da minha inocência. Desejo o seu
veredicto, não o julgamento dos homens. Exijo um
julgamento por combate.
Uma tempestade de súbitas gargalhadas encheu o Alto Salão
dos Arryn. Lorde Nestor Royce resfolegou, Sor Willis
gargalhou, Sor Lyn Corbray relinchou e outros atiraram as
cabeças para trás e uivaram até que lágrimas lhes correram
pelo rosto. Marillion arrancou desajeitadamente uma nota
alegre de sua nova harpa com os dedos da mão quebrada. Até
o vento pareceu assobiar com zombaria ao entrar, aos gritos,
pela Porta da Lua.
Os olhos de um azul aguado de Lysa Arryn pareceram
incertos. Tinha sido apanhada de surpresa.
- Tem certamente esse direito.
O jovem cavaleiro com a víbora verde bordada na capa deu
um passo em frente e caiu sobre o joelho.
- Minha senhora, peço a mercê de ser o campeão da vossa
causa.
- A honra deve ser minha - disse o velho Lorde Hunter. - Pelo
amor que sentia pelo senhor vosso esposo, deixe-me vingar a
sua morte.
- Meu pai serviu fielmente a Lorde Jon como Supremo
Intendente do Vale - trovejou Sor Aibar Royce. - Deixe-me
servir agora o seu filho.
- Os deuses favorecem o homem com a causa justa - disse Sor
Lyn Corbray -, mas é comum que este acabe por ser o homem
com a espada mais hábil. Todos sabemos quem este homem é
- e sorriu modestamente.
Uma dúzia de outros homens falou ao mesmo tempo,
clamando para serem ouvidos. Tyrion achou desanimador que
tantos estranhos estivessem ansiosos por matá-lo. Este afinal
talvez não tivesse sido um plano tão inteligente como
parecera.
A Senhora Lysa ergueu a mão exigindo silêncio.
- Agradeço, senhores, como sei que meu filho agradeceria se
estivesse entre nós. Não há homens nos Sete Reinos tão
ousados e leais como os cavaleiros do Vale. Gostaria de poder
conceder a todos esta honra. Mas só posso escolher um - fez
um gesto. - Sor Vardis Egen, foi sempre um bom braço direito
do senhor meu esposo. Será o nosso campeão.
Sor Vardis tinha estado singularmente silencioso.
- Minha senhora - ele disse gravemente, deixando-se cair sobre
o joelho -, peço livrar-me deste fardo, pois não tenho gosto
nele. O homem não é guerreiro nenhum. Olhe-o. Um anão,
com metade do meu tamanho e coxo das pernas. Seria
vergonhoso matar um homem assim e dar-lhe o nome de
justiça.
Ah, excelente, pensou Tyrion.
- Concordo.
Lysa olhou-o furiosa.
- Você exigiu um julgamento pelo combate.
- E agora exijo um campeão, tal como a senhora arranjou um.
Sei que meu irmão Jaime tomará de bom grado o meu
partido.
- Seu precioso Regicida está a centenas de léguas daqui -
exclamou Lysa Arryn.
- Envie uma ave até ele. De bom grado esperarei sua chegada.
- Defrontará Sor Vardis pela manhã.
- Cantor - disse Tyrion, virando-se para Marillion -, quando
escrever uma balada sobre isto, não se esqueça de dizer como
a Senhora Arryn negou ao anão o direito a um campeão, e o
enviou, aleijado, ferido e coxo, para defrontar seu melhor
cavaleiro.
- Não estou lhe negando nada! - disse Lysa Arryn, com a voz
esganiçada de irritação. - Indique seu campeão, Duende... Se
achar que há um homem que morra por você...
- Se não fizer diferença, preferia encontrar um que mate por
mim - Tyrion olhou em volta do longo salão. Ninguém se
mexeu. Por um longo momento, perguntou a si mesmo se
tudo aquilo não teria sido um colossal disparate.
Então, houve uma agitação na parte de trás da sala.
- Eu luto pelo anão - gritou Bronn.

Eddard

Sonhou um sonho antigo, sobre três cavaleiros de manto
branco, uma torre há muito caída e Lyanna em sua cama de
sangue.
No sonho, os amigos cavalgavam com ele, como o tinham
feito em vida. O orgulhoso Martyn Cassei, pai de Jory; o fiel
Theo Will; Ethan Glover, que fora escudeiro de Brandon; Sor
Mark Ryswell, de fala mansa e coração gentil; o cranogmano,
Howland Reed; Lorde Dustin, no seu grande garanhão
vermelho. Ned conhecera tão bem o rosto de cada um deles
como conhecia o seu, mas os anos sugam as memórias de um
homem, mesmo aquelas que ele jurou nunca esquecer. No
sonho, eram apenas sombras, espectros cinzentos montados
em cavalos feitos de névoa.
Eram sete, enfrentando três. No sonho, tal como acontecera
na vida. Mas aqueles três não eram homens comuns.
Esperavam defronte da torre redonda, c